Alergia e Imunologia

A especialidade de Alergia e Imunologia é um ramo relativamente recente na história da Medicina, embora várias doenças alérgicas tenham sido descritas desde a Antiguidade, como a asma e a alergia alimentar. O conceito de “alergia”, terminologia criada por Clemens von Pirquet em 1903, enfrentou resistência em sua aceitação inicial, por ter ido de encontro aos paradigmas estabelecidos na época que consideravam que o sistema imune era essencialmente protetor e não poderia ser o “causador” de doenças. Com o passar das décadas, o termo alergia estabeleceu-se, em paralelo ao aumento da prevalência de doenças alérgicas, em função da expansão da industrialização, urbanização, mudanças no estilo de vida, desenvolvimento de antibióticos e vacinas, mudanças climáticas e poluição ambiental.

Vários aspectos indicam que a especialidade de Alergia e Imunologia tem um enorme potencial de crescimento, ampliação do escopo de atuação e valorização pela comunidade médica e sociedade. Dentre estes, destacam-se o impacto epidemiológico das doenças alérgicas, o amplo espectro das doenças alérgicas e desordens imunológicas, o acometimento de pacientes de todas as faixas etárias, a evolução no conhecimento dos mecanismos de desordens alérgicas e imunodeficiências, a identificação de novos alvos terapêuticos, o desenvolvimento dos imunobiológicos e as diversas interfaces da especialidade. A Alergia e Imunologia tem interface com a Pneumologia, Dermatologia, Otorrinolaringologia, Reumatologia, Gastroenterologia, Infectologia e Hematologia. Além disso, o especialista em Alergia e Imunologia é um profissional que pode atuar em diferentes níveis de atenção médica, bem como em ações de prevenção e promoção à saúde, e também em pesquisas clínicas.

Atualmente, as doenças alérgicas constituem uma questão de saúde pública, acometendo em torno de um bilhão de pessoas no mundo, gerando um grande impacto nos sistemas de saúde pública e privada, com altos custos diretos e indiretos, bem como comprometimento significativo da qualidade de vida dos pacientes e familiares. No Brasil, estima-se que em torno de 30% da população seja acometida por uma ou mais doenças alérgicas. Certamente, a melhoria da assistência aos pacientes com doenças alérgicas implica na elaboração de políticas de saúde, programas de atenção primária, expansão de ambulatórios especializados e centros de referência. Em todas estas instâncias, há necessidade da atuação de especialistas em Alergia e Imunologia, quer seja na capacitação de profissionais de saúde na atenção primária, no planejamento e gerenciamento de programas de prevenção e assistência, e na atenção médica secundária e terciária.

Por outro lado, embora as imunodeficiências primárias (IDP) permaneçam como doenças raras, os avanços no diagnóstico e tratamento propiciaram aumento na identificação de casos de IDP, melhora da sobrevida e qualidade de vidas dos pacientes, permitindo que uma parcela destes atinja a vida adulta, desde que precocemente diagnosticados e com o tratamento adequado. Dentre estes progressos destacam-se a identificação de novas síndromes, o diagnóstico molecular e genético, o desenvolvimento da triagem neonatal de imunodeficiência grave combinada (SCID), a ampliação do acesso a terapias de reposição com imunoglobulina humana, o aumento do número de transplantes de medula óssea, o desenvolvimento de novos tratamentos, como para o angioedema hereditário e as desordens autoinflamatórias. Assim sendo, a assistência a pacientes com IDP é uma área de atuação com potencial para expansão, embora ainda limitada pelo alto custo dos procedimentos diagnósticos e terapêuticos, alta complexidade e assistência restrita aos grandes centros de pesquisa e ensino. O contingente de pacientes com imunodeficiências secundárias também aumentou em decorrência dos avanços no tratamento da infecção pelo HIV/AIDS, doenças autoimunes, neoplasias malignas e transplantes de órgãos. O imunologista é um profissional capacitado para atuar interdisciplinarmente em pesquisas clínicas e no manejo de pacientes com imunodeficiências secundárias.

O alergista e imunologista é um especialista diferenciado, que, embora seja especializado em uma área específica do saber médico, a prática clínica o coloca próximo de clínicos, pediatras e geriatras, uma vez que presta assistência a pacientes de todas as faixas etárias e exige o domínio da abordagem integral do paciente, pois as doenças alérgicas e imunológicas apresentam um amplo espectro de manifestações clínicas acometendo diversos órgãos e aparelhos e, frequentemente, os pacientes apresentam duas ou mais condições alérgicas concomitantes.

A imunoterapia alérgeno específica, um procedimento consolidado e utilizado há mais de um século, é o único tratamento modificador de doenças alérgicas. Nas últimas décadas, foram obtidos avanços significativos, como o aprimoramento dos extratos alergênicos (extratos purificados, padronização e alérgenos recombinantes) e a comprovação da eficácia da imunoterapia sublingual. No presente, novas abordagens estão sendo investigadas, com destaque para novas vias de administração (intralinfática, epicutânea e intradérmica), novas tecnologias de produção de extratos alergênicos (peptídeos, adjuvantes DNA, moléculas sensibilizantes altamente purificadas e nanomoléculas) e novas indicações (dermatite atópica e alergia alimentar).

A evolução na compreensão da regulação do sistema imune e dos mecanismos celulares e moleculares envolvidos nas desordens alérgicas levou à identificação de fenótipos e endotipos, possibilitando a perspectiva do tratamento personalizado – medicina de precisão. Atualmente, inúmeras pesquisas buscando a identificação de marcadores biológicos em doenças alérgicas estão em curso. Além disso, o advento do component-resolved diagnostic – CRD (diagnóstico molecular) possibilitou a identificação precisa dos epítopes contra os quais o paciente está sensibilizado. Ocorreram também avanços na farmacogenômica, que resultaram em aplicações clínicas na alergia a drogas. A medicina de precisão pode propiciar melhora na evolução clínica, maior preditibilidade da resposta ao tratamento, redução de efeitos colaterais, melhora da qualidade de vida e a optimização dos recursos da saúde.

Todos os avanços obtidos, os investimentos em pesquisas em Alergia e Imunologia, as perspectivas em curto e médio prazo de novos métodos diagnósticos e terapias, aliado a dados epidemiológicos que apontam para o aumento da incidência e prevalência de doenças alérgicas, indicam que a especialidade de Alergia e Imunologia está em franco crescimento e com potencial para a ampliação da área de atuação. Contudo, é necessário que o conjunto de médicos alergistas e imunologistas esteja em constante atualização científica, acompanhe a evolução da especialidade, incorporando novos procedimentos e tecnologias no exercício profissional e esteja capacitado para atuar interdisciplinarmente com as especialidades afins. Além disso, é necessário sensibilizar as autoridades governamentais para a importância de políticas de saúde para a prevenção e assistência a pacientes com doenças alérgicas e imunodeficiências e o desenvolvimento de campanhas e ações visando à conscientização e mobilização da sociedade sobre a importância do diagnóstico e tratamento de desordens alérgicas e imunodeficiências.